Archive for março \06\UTC 2009

Imagino Veneza (partes I , II, III, IV e V)

06/03/2009

janela-bordada

 

parte I.

 

Escrevo de Veneza, lugar onde  nunca estive.

Como funciona escrever de um lugar onde nunca se esteve antes?  

Quero chegar a um estado de Veneza. 

Sou permitida pela palavra,

matéria que se move entre o vivido e o não vivido.  

 

A palavra me levou aonde nunca estive.

Sou uma invenção.

Palavra clandestina que habita Veneza.

O plano é quase bidimensional.

Cinza claro da água enevoada que dispersa a paisagem.

Veneza é uma camada de umidade que contorna os corpos.

A luz desfaz a névoa.

Abre-se a visão nítida de uma praça redonda.

A diversidade cinza daqueles tons que colorem pedras.

Perguntas me surgem duras e secas como a praça ao sol.  

 

Como se morre em Veneza?

Como se enterra algo em Veneza?

E a poeira do que é vivo, aonde vai morrer?  

É dissolvida?  

Desaparece no cinza? 

 

A morte vive no cinza que se acumula entre as camadas de tempo.  

A morte renasce  dissolvida na umidade das águas.  

Mas não falarei das águas.  

Porque esta densidade muda é o mistério de Veneza.  

Revelado em uma língua indizível, sem vogais ou consoantes.  

Que eu não poderei inventar por escrito. 


parte II


O que prova o mistério destas águas é o fato Veneza existir.

O milagre aqui é de poeira e pedra.

Poeira que permite minhas palavras.

Feita de grãos infinitamente partidos.

Misturados ao tempo também infinitamente dissolvido.  

A poeira possui seus atributos particulares:

é um ser que se distingue pela sabedoria que tem em se dar.

É nas relações com as coisas que ela se compõe e se mostra.


Quando penetra outros corpos.

Pelas vias aéreas superiores daqueles que respiram.

Quando se deposita pouco a pouco sobre uma superfície.

Por um deslize próprio ao que é sujo e inútil.

Se esconde nos cantos, se espalha nas bordas e entope as fissuras.

Permanece adormecida.

Até adquirir a consistência embolada de uma quase coisa.

A poeira é a vontade última dos restos que insistem em existir.


A mais bela das combinações.

É a poeira elevada pelos ventos à condição de dança.

Nesta paisagem vertical acontece a poeira em estado de esplendor.

Ela aparece como uma cortina transparente

Que brilha soberana, leve e indefinida.

É apenas pelo acaso de um olhar

que se pode observar a poeira em estado de dança. 

Mas em Veneza não.


Em Veneza basta que se tome uma distância entre as névoas

E o olhar seja duro o bastante para atravessar o espaço.

E lançar-se fixo contra uma pedra qualquer.

É necessário que esta combinação de névoa, olhar e pedra,

se mantenha tensa até que o contorno da paisagem

esteja de tal modo dissolvido no cinza que o sol,

a lua ou a lâmpada elétrica iluminem a dança da poeira no ar.

A poeira de Veneza tem urgência deste esplendor,

porque sabe que sua tendência

é morrer dissolvida no mistério turvo das águas.

Mas das águas não falarei.


parte III


A pedra já nasce antiga.

Por ter sido um dia a vida íntima de um vulcão,

guarda na verdade de seu cinza mais pálido e duro,

A força mole e vermelha da lava.

Ela é filha de um tempo sempre atual

Onde tudo está ainda em formação.

O concentrado desta descendência infinita é um atributo da pedra. 

Uma pedra sozinha é tão inexpressiva quanto uma face sem rosto.

Suas camadas internas repetem-se em lâminas idênticas.

A face neutra é conservada

Por mais que os tempos avancem o desgaste da superfície.

 

Em Veneza uma pedra jamais se deixa existir sozinha.

Ao modo dos corais que vivem no fundo do mar.

As pedras são dispostas aos milhares.

Unidas pelo tempo e pelos poros.

O encaixe de bordas irregulares cria uma extensão epidérmica.

Veneza é recoberta deste cinza até os limites que vestem sua nudez.

Como uma pele monstruosa e ressecada que recobre a paisagem.

O desenho de seu corpo é traçado entre as pedras, o céu e as águas.

Mas das águas não posso falar.


A praça redonda em Veneza é tão bruta que me envelhece.

Meus pés sobre suas pedras pisam provisórios

É como se, de tão velhos, lhes faltassem a pele,

os tendões, os músculos e os nervos.

Restam os ossos.

A sensação me escapa o pensamento.


Mas o movimento é duplo:

Quando o cinza da pedra precipita o cinza no osso,

o vermelho da lava ancestral me atualiza o sangue vivo.

Recobro a juventude em meu nome.

É que a verdade da pedra tem um pouco a verdade do osso.

Meus pés flutuam e piso o ar em silêncio.

Escuto o ruído cinza – é Veneza que respira sem parar

Renovada nas coisas que descamam,

invadida pelas ranhuras dos corpos que se atritam,

indefesa nas cascas que os caminhos desprendem,

erguida entre cacos de madeira e paredes escavadas.


A paisagem é de tal modo saturada por grãos e asperezas

Que basta a minha densidade caminhante

entrar em estado de Veneza

Para que o chão se afunde um pouco mais.

Elevo o nível das águas e elas me elevam junto,

Não por privilégio meu, elas emergem qualquer corpo.

Mas das águas não falarei.

Não posso nem mesmo tocá-las.

Desta impossibilidade conservo como prova

As minhas mãos sujas de terra.

 

parte VI


A terra entrou comigo em estado de Veneza

E quer me levar embora.

Deixo-me ir por fidelidade de corpo.

É que o meu amor é óbvio e involuntário,

Como o da montanha que já nasce sabendo deitar a paisagem. 

Deito o meu estado de Veneza sobre a terra que carrego.

 

Meu sono não é sonho, mas um transe da transição.

Um estado de repouso dado à superfície

Que se aprofunda em camadas sucessivas de terra.

Abaixo do abaixo há um entremeio de águas

E outro leito cercado por mais terra.

No limite da profundeza em que me deito,

Há  terra disfarçada de matéria vermelha.

Ela se esconde em um estado de dissolução movediça,

Capaz de romper águas virgens entre terras eternas

Para chegar ao milagre de tornar-se pedra cinza ao vento.

 

Veneza já não flutua mais sob meus pés.

Piso a terra úmida de um platô.

Esboço buracos com os dedos dos pés.

A montanha de terra não se altera.

O contorno alargado é o único presente que a viagem trouxe.

Minhas palavras foram à Veneza e voltaram de mãos vazias.

Não carreguei poeira ou pedra,

Nem me lavei no impronunciável das águas.

Minha pele é suja porque me deitei com a paisagem.

Imunda de vida como o sangue da mãe na criança nascida.


Sou uma mulher que olha,

O que  basta como direito ao silêncio.

Vejo um mistério inquieto

Que me cresce escondido no embaixo das unhas,

O mesmo que alonga os meus cabelos sem parar.

Tenho nas mãos muito o que fazer e nenhuma idéia pronta. 

 

parte V


 

Entrar em estado de Veneza

me impregnou de uma tal inadequação.

Que sou obrigada a dizer o que ainda não disse

– é sobre as águas.

Não as de Veneza, que são impronunciáveis,

mas as que por destino molham minhas palavras.

 

Isto eu sei por adivinhação:

Fui traçada quando o braço de um rio

erodiu sua margem e encontrou uma nascente.

Brotei num fluxo de desejo que por transbordamento

entrou em desvio e se perdeu.

Minha natureza é um híbrido de água e terra.

Sei que esta condição material deve ser bem tratada.

Por descaso eu poderia tornar-me pântano

entre raízes negras ou uma profundidade represada de lama seca.

 

Nasci sabendo-me impura.

E predestinada pelas águas ao acolhimento.

Por resistência escolho me decompor a seco,

e a vida se encarrega de me reunir por inundações.

Habito a densidade da matéria que me atravessa.

E são tantas palavras dispersas entre a água e a terra

que me perco na sensação transitória da escrita.

Estados e movimentos me consomem.

 

Roubo a prontidão dos nomes.

A vergonha no adjetivo me olha.

Desejo o deslize dos verbos.

E o substantivo consistente me bate aos pés.

Toco o que não compreendo.

Tateio com as palavras.

 

Minhas mãos são dois olhos vazados.

Que apreenderam no buraco do que vêem

o nome imenso do incompreensível.

 

 

 

Anúncios